domingo, 6 de maio de 2012

No bico da chaleira...

Chove bastante aqui em Itacaré. Sinto falta do cafezinho que eu faço lá em casa na minha garrafa térmica vermelha. Por isso posto uma foto das chaleiras conversando à beira do fogo.

sábado, 5 de maio de 2012

Como nossos pais


Em uma tarde qualquer de encanto e calor em Salvador, no 2 andar na Rua Amazonas, diante do janelão imenso da sala e de finalmente o filho mais velho pegar no sono no quarto ao lado, meus pais enlaçaram-se e conceberam-me. Sim, fui feita numa tarde quente da Bahia, a alguns metros do marzão de Pituba.



A barriga da minha mãe foi crescendo, crescendo, crescendo até que uma notícia de última hora mudou todos os planos anteriormente feitos: meu pai fora demitido do Banco Econômico. Crise dos anos 80 batia na porta e rapidamente as malas, atestado falsificado, meus pais partiram de volta pra São Paulo a quase 20 dias da Mônica desembestar pelo mundo.

Após 31 anos, emocionada ao encontrar o apê da Pituba

Desempregado, meu pai, a Mônica nasceu de parteira, enfermaria, parto normal, no Hospital Santa Marta, na Rua Antônio Bento, a alguns metros do Largo 13 de maio, em Santo Amaro, São Paulo. Curiosamente a alguns metros também do emprego atual dela, que fica na Amador Bueno.

Os primeiros dias da pequena Mônica foram no sobradinho germinado ali em Santo Amaro, ao lado dos cuidados todos dos avós, tios e tias. Moniquinha foi logo já não gostando de rosa, aglutinando pessoas, aprendendo a ser guerreira e independente, uma legítima filha do grande guerreiro da Lua e devota do seu próprio pai de sangue.

Atávica esta relação de pai e mãe. E danada de necessária esta busca para resolver nossas pendengas com eles e entender este redimunho todo que nos envolve desde o nascimento até à morte. Questão de indentificação, de muito amor, de irritação, de expectativas, de ausências, de presenças, de traumas, de mágoas, de carinhos, resultado de todas as nossas escolhas da vida que vem depois que nos desprendemos deles. O cordão é cortado quando? A gente consegue nos desprender totalmente? Porque apesar de tudo, do tempo, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?




"Descobri cedo nas fotografias da minha mãe que a felicidade é uma coleção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelecidos pela ausência se revelam"

Inês Pedrosa, em Nas Tuas Mãos

Do meio... Ou do começo ... ou do fim.

Em maio de 2011, resolvi fazer uma viagem ao meu descobrimento. Depois de assistir a um café filosófico em que o filósofo Yves de La Taille discorreu sobre a grande diferença entre turista e peregrino, vi o quanto gosto de fazer as vezes de peregrina e o quanto isso tudo faz um sentido maior pra mim. Fiz minhas malas, calibirei os pneus do Donzinho, escolhi uma boa trilha sonora e saí acompanhada por um guia quatro rodas e do meu tio Miguel no porta malas. Esta história do meu tio é um post à parte, em que a minha tia Olímpia explica bem em relato em seu próprio blog. O fato é que esta primeira viagem peregrina foi uma tentativa de voltar às origens, às minhas origens, entender meus traços, meus abraços, meus estardalhaços todos por meio dos meus sobrenomes,  em busca das lembranças e histórias de meus ancestrais perdidos por essas terras de meu deus.

Hoje, em maio de 2012, faço a viagem do descobrimento parte II.  Posso afirmar que estou descobrindo, tirando a venda dos olhos e enxergando sem miopia. Feito Miguilim no final da história, que a paisagem fica nítida e as visagens se cabem todas numa boniteza sem tamanho.


Murakami e o tempo que passa

Meu novo apego é um autor japonês - Haruki Murakami - desde que a minha prima me emprestou um livro em que se tratava de "pensamentos enquanto se corre". Achei muito interessante o mote e o encarei. Veio muito a calhar, pois a leitura se desenvolveu justo durante a minha viagem de 4.000 mil km em 25 dias por cinco estados brasileiros, inúmeras cidades, praias e montanhas. Como eu mesma denomino, a minha "viagem peregrina", eu comigo mesma, a bordo do meu Donzinho que se mostrou tão aventureiro e ponta firme quanto à dona dele.

O curioso é que o Murakami tem uns pensamentos iguais aos meus. E o fato dele discorrer sobre os devaneios que ele tem durante as kilometragens das suas corridas de longas distâncias, em treinos diários, assemelhavam-se às minhas viagens durante o percurso que traçava até a Bahia.



Agora que voltei, minha prima me presenteou com um romance dele de verdade - Norwegian Wood - do qual estou me alimentando durante as manhãs de sol que invadem meu apê paulistano. O Murakami tem sido minha melhor cia desde então... desta minha retomada à leitura, pois, confesso, que andava travada, angustiada e sem qualquer resquício de concentração e tesão para os livros.


"Nada do mundo real é tão belo quanto as ilusões de uma pessoa prestes a perder a consciência".
Murakami, em Do que eu falo quando falo de corrida.


Nesta passagem que ele faz se refere à uma maratona na Grécia e o quanto ele ansiava por uma cerveja gelada. Lembrei de quando fiz o percurso de 10 km em Sto Amaro, na marginal pinheiros da minha infância, e em todas coisas que pensei naquela eterna 1h em que completei a prova. Meu melhor tempo desde então. Excelente forma física me encontrava. E uma das coisas que mais me incentivava a chegar ao fim, em meio à embriaguez que o desgate físico provoca em nós numa manhã de verão com o asfalto queimando, era uma vontade minha de ser beijada por um certo grande amigo meu. Eu achava que se completasse a prova, iria ser agraciada pelo beijo mais desejado por mim naquela época. Do cara que um dia tinha sido completamente apaixonado por mim, e dez anos depois, os sentimentos se inverteram. E por esses dias juninos, fiquei sabendo que o dito cujo está noivo. Pois é, coisas do tempo que passa.


"Sou do tipo de pessoa incapaz de entender bem alguma coisa, seja lá o que for, se não a puser por inteiro no papel".



Murakami, em Norwegian Wood.



***post originalmente escrito em junho de 2011***